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Criar pontes entre o Mar Presente e o Futuro: Museu Marítimo de Sesimbra, um Museu da Comunidade, no Século XXI

Andreia Filipa Conceição

Diretora do Museu Marítimo de Sesimbra.

■ RESUMO

Foi com enorme satisfação que recebemos o convite para escrever um artigo para a revista Drassana, considerando os laços que temos criado, nos últimos anos, com o Museu Marítimo de Barcelona, sendo de salientar que as milhas que nos separam estão ligadas pelo Mar que nos une. Com efeito, este é um momento muito relevante da história recente do Museu Marítimo de Sesimbra (MMS), uma vez que temos em mãos inúmeros projetos relevantes, dinamizados em parceria com a Comunidade, entendidos como fundamentais para a promoção, a nível nacional e internacional, dos vários patrimónios marítimos à nossa guarda. As novas extensões, como o Estaleiro-Escola Acácio Vidal Farinha ou o futuro Centro Cultural Costeiro | Sesimbra, as criações artísticas em parceria com a Comunidade, o impacto da nomeação para Museu Europeu do Ano, e o acolhimento, em 2024, do 29º Fórum dos Museus Marítimos do Mediterrâneo, serão alguns dos temas que iremos abordar ao longo das próximas páginas.

Palavras-chave: Museu, Sesimbra, Portugal, Pescas.

Building bridges between the Present Sea and the Future: Sesimbra Maritime Museum, a Community Museum in the 21st Century

■ ABSTRACT

It was with great satisfaction that we received the invitation to write an article for Drassana magazine, considering the ties we have, in recent years, created with the Barcelona Maritime Museum, and it should be noted that the miles that separate us are linked by the Sea that connects us. Indeed, we are living a very relevant moment in the Museum’s recent history, as we have in our hands numerous relevant projects, promoted in partnership with the Community, understood as fundamental for the promotion, at national and international level, of the Sesimbra’s different maritime heritages. The new extensions, such as the Acácio Vidal Farinha Shipyard-School or the future Coastal Cultural Center | Sesimbra, artistic creations in partnership with the Community, the impact of the nomination for European Museum of the Year, and the hosting, in 2024, of the 29th Mediterranean Maritime Museums Forum, will be some of the topics that we will address over the next pages.

Keywords: Museum, Sesimbra, Portugal, Maritime Heritage, Fisheries.

Tenint ponts entre el Mar Present i el Futur: el Museu Marítim de Sesimbra, un Museu Comunitari al segle XXI

■ RESUM

Va ser amb gran satisfacció que vam rebre la invitació d’escriure un article per a la revista Drassana, tenint en compte els vincles que, en els darrers anys, hem creat amb el Museu Marítim de Barcelona, i cal destacar que les milles que ens separen estan lligades per la Mar que ens uneix. En efecte, aquest és un moment molt rellevant en la història recent del Museu, ja que tenim a les nostres mans nombrosos projectes rellevants, impulsats en col·laboració amb la Comunitat, entesos com a fonamentals per a la promoció, a nivell nacional i internacional, dels diferents patrimonis marítims que custodiem. Les noves ampliacions, com la Drassana-Escola Acácio Vidal Farinha o el futur Centre Cultural del Litoral | Sesimbra, les creacions artístiques en col·laboració amb la Comunitat, l’impacte de la nominació a Museu Europeu de l’Any i l’acollida, el 2024, del 29è Fòrum de Museus Marítims de la Mediterrània, seran alguns dels temes que tractarem al llarg de les pròximes pàgines.

Paraules clau: Museu, Sesimbra, Portugal, Patrimoni Marítim, Pesca.

Tendiendo puentes entre el Mar Presente y el Futuro: el Museo Marítimo de Sesimbra, un Museo Comunitario en el siglo XXI

■ RESUMEN

Con gran satisfacción recibimos la invitación para escribir un artículo para la revista Drassana, teniendo en cuenta los vínculos que hemos creado estos últimos años con el Museo Marítimo de Barcelona, y cabe destacar que los kilómetros que nos separan están unidos por la Mar que nos une, uníos. De hecho, este es un momento muy relevante en la historia reciente del Museo, ya que tenemos entre manos numerosos proyectos relevantes, impulsados en colaboración con la Comunidad, entendidos como fundamentales para la promoción, a nivel nacional e internacional, de los diversos patrimonios marítimos que custodiamos. Las nuevas ampliaciones, como el Astillero-Escuela Acácio Vidal Farinha o el futuro Centro Cultural Costero | Sesimbra, las creaciones artísticas en colaboración con la Comunidad, el impacto de la nominación a Museo Europeo del Año y la celebración, en 2024, del 29º Foro de Museos Marítimos del Mediterráneo, serán algunos de los temas que abordaremos a lo largo de las próximas páginas.

Palabras clave: Museo, Sesimbra, Portugal, Patrimonio Marítimo, Pesca.

Figura 1. Museu Marítimo de Sesimbra

■ 1. MUSEU MARÍTIMO DE SESIMBRA, UMA BREVE HISTÓRIA DE LIGAÇÃO MILENAR AO MAR

Inserido numa comunidade onde se pesca há mais de cinco mil anos, o Museu Marítimo de Sesimbra (MMS) abriu ao público a 31 de maio de 2016, simbolicamente no Dia Nacional do Pescador, tendo nascido da necessidade da população para criar uma “Casa de Memórias” que salvaguardasse os vestígios, materiais e imateriais, da sua identidade histórica e cultural.

Grande parte das suas coleções resultam da recolha iniciada, em 1981, pela Câmara Municipal de Sesimbra, uma ação que teve continuidade até aos nossos dias e que consiste no principal elemento de ligação com a Comunidade Piscatória. Objetos de cariz etnográfico, relacionados com a pesca e os ofícios tradicionais, filmes, documentos, testemunhos orais e imagens, fazem do espaço museológico uma extensão do “álbum de fotografias” das famílias sesimbrenses e, também, uma espécie de “baú” das memórias que devem ser transmitidas à geração seguinte.

Figura 2. Exposição permanente do MMS

Instalado num edifício militar do século XVII, a Fortaleza de Santiago, o Museu aborda o legado marítimo de Sesimbra ao longo dos últimos 200 milhões de anos, dispondo-se por onze salas, onde são ilustrados os seguintes temas: Mar Antigo – Evidências arqueológicas; Arte – Artes de pesca e indústria conserveira; Construção naval e embarcações de Sesimbra; Memória e devoção – Pescadores, homens do mar, naufrágios e religiosidade; Viagem – Caracterização da arte de navegar; Sala da Comunidade – Doações com a biografia do doador; Parque Marinho Professor Luiz Saldanha – Aquário digital com as espécies marinhas mais representativas; História da Fortaleza de Santiago; Carlos de Bragança “O Rei Pescador” – apresentação das primeiras campanhas oceanográficas a nível mundial; Filme “Desde o Princípio” – filme multimédia 3D com apresentação da formação e evolução do território de Sesimbra ao longo dos últimos 200 milhões de anos.

Dentre os objetos que compõem a coleção, podemos destacar os anzóis em cobre do Castro Calcolítico do Outeiro Redondo, com cerca de cinco mil anos, que são alguns dos mais antigos da Europa e atestam um longo historial de aperfeiçoamento técnico, ou o brinco fenício do I milénio a. C., evidência dos primeiros contactos com o Mediterrâneo Oriental.

Figura 3. Anzois datados do Calcolítico. Castro do Outeiro Redondo

■ 2. ENVOLVER A(S) COMUNIDADE(S)

Desde a preparação do programa museológico que a comunidade sesimbrense esteve envolvida na construção do Museu pelo que, após a sua abertura, continuou a participar, ativamente, nos programas e nas demais ações.

Contudo, em 2018, percebemos que as clássicas conferências científicas, as visitas acompanhadas, as exposições temporárias e a oferta regular do Serviço Educativo, eram manifestamente insuficientes na ótica da diversificação de públicos e na captação dos mesmos para a participação ativa no quotidiano do Museu.

Assim, no ano seguinte, após um exaustivo período de reflexão, e uma consulta informal aos membros da Comunidade, os quais responderam à simples pergunta: “O que espera do seu Museu?”, reformulámos a estratégia de programação através de uma oferta dinâmica, diversificada, imprevisível e participada, quer na conceção quer na execução de iniciativas.

Consistindo numa ação totalmente inovadora e sem precedentes, isto permitiu a introdução de novos conceitos, baseados na salvaguarda e partilha de antigas memórias e saberes tradicionais, praticamente esquecidos, aliados aos temas da contemporaneidade, possibilitando, ao publico em geral, o acesso aos mesmos, de forma genuína e espontânea. Neste domínio, importa destacar a associação do MMS aos moradores da emblemática “Rua dos Pescadores”, em Sesimbra, incentivando-os a retomar a tradição secular de a decorar com os Santos Populares, reintroduzindo a celebração coletiva da “Caldeirada de S. Marçal”, da noite de fados, e da tertúlia de poesia.

Figura 4. Caldeirada Coletiva na Rua dos Pescadores. Sesimbra

Receitas culinárias seculares, arqueologia, assuntos traumáticos, artes de pesca milenar, antigas técnicas de conservação de alimentos, navegação empírica, ou produção de apetrechos de pesca, são alguns dos objetos das atividades que compõem, atualmente, a programação regular do MMS, cuja execução conta, também, com a participação de investigadores e académicos, numa junção inédita de conhecimentos, e ângulos, diversificados sobre as mesmas matérias.

Paralelamente, também as manifestações artísticas, como as artes plásticas, o teatro, a música e a poesia, são valorizadas na programação, mediante a participação equitativa de atores voluntários e profissionais em produções construídas, coletivamente, de raiz.

A inovação e a criatividade das ações despertaram o interesse do público em geral, tendo sido registado um aumento de 1/3 dos visitantes, quantificado em, aproximadamente, dez mil participantes num universo de duzentas atividades realizadas anualmente.

Figura 5. Espetáculo Comunitário

■ 3. COMUNICAÇÃO DIGITAL, TECNOLOGIA E MULTIMÉDIA

Assumindo as novas tecnologias e a comunicação digital como elos essenciais para chegar a uma audiência global, também em 2019 foram criadas duas plataformas ligadas às redes socais: as páginas de Facebook e de Instagram. Consistindo num importante passo para a democratização das coleções e dos conteúdos museológicos, a presença do museu nas redes sociais revelou-se fundamental para a fidelização e o envolvimento de novos públicos, permitindo concretizar os seguintes objetivos:

- Quebrar barreiras físicas e intelectuais, estreitando relações com os públicos com necessidades especificas;

- Envolver os visitantes sénior na ótica da promoção de uma vida ativa, incentivando à participação nas atividades do museu e à utilização de novas tecnologias;

- Contribuir para o desenvolvimento cultural, económico, social, ambiental e identitário da região;

- Fomentar uma educação cultural e ambiental de base;

- Promover o livre acesso ao conhecimento e a saberes relacionados com a história local e a cultura marítima;

- Formar novos públicos mediante a conceção de atividades e experiências inovadoras e gratificantes, de acordo com os comentários deixados nas redes sociais;

- Valorizar a imagem social da atividade da pesca e dos profissionais do sector;

- Reconhecer e agradecer, publicamente, o envolvimento, o empenho e o trabalho voluntário da comunidade sesimbrense.

Contando com o envolvimento de dez mil seguidores, e com uma amplitude de mais de 400 mil visualizações/mês, para além de vídeos, fotos de autor e pequenos conteúdos temáticos, a grande mais-valia da presença nas redes sociais foi, sem dúvida, a implementação do programa “Oficinas de Saber e Partilha”.

Figura 6. Aquário Digital

Cumprir a importante missão da promoção de uma vida social ativa e da aquisição, e partilha, de diferentes tipos de conhecimento ao longo da vida, nestas “Oficinas”, o público é convidado a gravar, por meios próprios, um vídeo de curta duração, partilhando saberes, testemunhos ou memórias. Publicados nas páginas do MMS, estes conteúdos têm permitido a ampla difusão destes temas junto dos diversos públicos, reforçando os laços com a Comunidade.

Na área das novas tecnologias, o investimento em suportes multimédia foi, desde o primeiro momento, uma forma muito relevante para transmitir, de forma lúdica e pedagógica, informação essencial para o entendimento, e fruição, do discurso expositivo. A sua aplicação divide-se em cinco grandes áreas:

- Dois ecrãs de pesquisa interativa das rotas de navegação, das embarcações, dos naufrágios, e dos pescadores inscritos na delegação marítima, desde finais do século XIX até aos nossos dias.

- O aquário digital que recria a biodiversidade do Parque Marinho Luiz Saldanha, nomeadamente algumas das 1500 espécies, até ao momento, identificadas.

- O filme 3D “Desde o Princípio”, experiência multissensorial que visa a apresentação da formação, e evolução, do território de Sesimbra ao longo dos últimos 200 milhões de anos.

- Doze ecrãs de vídeo, com visionamento de filmes sobre aspetos marítimos dos séculos XX e XXI.

- Aplicação móvel para visita autónoma, a qual pode ser instalada livremente ou utilizada em telemóveis disponibilizados gratuitamente, no acolhimento, e visita virtual no site do museu: http://www.museusesimbra.pt/.

Figura 7. Mesa Digital da Memória

Implicando um considerável investimento financeiro, a implementação desta tecnologia revelou-se uma aposta ganha, permitindo ao visitante usufruir de uma experiência única e totalmente inovadora, considerando as soluções multimédia terem sido desenvolvidas, exclusivamente, em função do acervo museológico e das narrativas do MMS.

Uma das apostas ganhas, e que mais impacto tem tido junto da comunidade, é a “Mesa da Memória”, um ecrã interativo onde é possível pesquisar a base de dados, em permanente com os registos marítimos dos pescadores sesimbrenses na delegação marítima. Deste modo, muitas famílias têm obtido fotografias e informações inéditas sobre os seus antepassados, o que tem gerado uma onda de emoções em torno do Museu.

■ 4. MUSEU MARÍTIMO DE SESIMBRA, VERSÃO 2.0: ESTRATÉGIA DE PROMOÇÃO A NÍVEL NACIONAL E INTERNACIONAL

Um ano após a sua abertura ao público, entendendo que este tipo de reconhecimento teria um impacto relevante na ligação à Comunidade, a equipa decidiu concorrer aos prémios da Associação Portuguesa de Museologia (APOM), os quais distinguem os melhores pojetos do ano na área da museologia.

Tendo obtido a menção honrosa para melhor museu português do ano, o prémio para melhor aplicação e gestão multimédia e para melhor Serviço Educativo e extensão cultural, este reconhecimento obteve uma significativa visibilidade na comunicação social nacional, tendo potenciado um aumento significativo de público.

Avaliando o impacto positivo dos prémios, no ano de 2019, iniciámos a estratégia de promoção internacional do Museu. Deste modo, o MMS consistiu no primeiro museu português, em nome individual, a aderir à NEMO – Network of European Museums Organizations, tendo-se associado ao ICMM – International Congress of Maritime Museums, à Associação de Museus Marítimos do Mediterrâneo e à Rede Ibérica de Museus Marítimos.

Com efeito, a participação nestes congressos internacionais permitiu-nos dar maior visibilidade ao trabalho realizado pelo MMS, estabelecer redes de ação e criar sinergias com museus congéneres do mundo inteiro, tendo-nos potenciado a visão em concorrer aos EMYA – European Museum of the Year Awards, que valeu a nomeação em 2020.

Este momento foi, de facto, um ponto de viragem na valorização do trabalho do Museu, o qual obteve, desde então, duas dezenas de prémios e reconhecimentos, a nível nacional e internacional, de que destacamos o segundo lugar na 10ª edição do Prémio Educação da Rede Ibermuseus para o projeto: “Museu Fora de Portas: O Museu visita as IPSS (Instituições Privadas de Solidariedade Social)”.

Por acréscimo, também a promoção da vila de Sesimbra enquanto produto turístico, saiu impactada com a promoção do MMS, reforçada pelo acolhimento, em 2024, do 29º Fórum dos Museus Marítimos do Mediterrâneo, esperando-se a presença de cerca de uma centena de profissionais de toda a Europa.

■ 5. UM MUSEU EM PERMANENTE EXTENSÃO E OUTROS OLHARES PARA O FUTURO

Considerando a riqueza imensurável do património cultural marítimo sesimbrense, o qual se encontra materializado em vários espaços físicos, o MMS possui, neste momento, um conjunto muito relevante de projetos em mão, tendo em vista a sua expansão, nomeadamente:

Centro Cultural Costeiro | Sesimbra (CCC)

Instalado num edifício de início do século XX, irá abrir ao público em abril de 2024, resultando num financiamento de, aproximadamente, dois milhões de euros, parcialmente comparticipado pelo mecanismo EEA Grants.

Contando com a parceria da Universidade Ártica da Noruega – UIT, em Tromso, do Museu Marítimo da Noruega, em Oslo, e de dois parceiros locais: a Associação dos Armadores da Pesca Artesanal e Local do Centro e Sul, e a ArtesanalPesca - Organização de Produtores de Pesca, CRL, o projeto tem como objetivos dinamizar a economia local, promover a pesca sustentável e a identidade da atividade piscatória, salvaguardar ofícios tradicionais como a construção naval em madeira, valorizar o património cultural marítimo, implementar novas tecnologias para transformação de pescado, e incentivar a produção de conhecimento sobre o Mar.

Tendo sido o mote para um conjunto relevante de ações de intercâmbio entre Portugal e a Noruega, irá permitir, também, a instalação de uma reserva visitável, museografada, que será uma extensão do MMS, e permitirá expor, de modo funcional, a vasta coleção doada pela Comunidade, motivando a sua fruição coletiva.

O projeto prevê, igualmente, a organização de várias ações de formação, encontros, um Seminário de promoção científica, e uma exposição sobre o futuro das pescas, que irá inaugurar em 2024 e que contará com a participação ativa da Comunidade.

Figura 8. Estaleiro de Acácio Vidal Farinha

Estaleiro Escola Acácio Vidal Farinha

A construção naval tradicional em madeira é, desde há séculos, senão milénios, uma atividade fundamental na relação das Comunidades com o Mar. Contudo, ao longo das últimas décadas, a substituição desta matéria-prima por outras mais rentáveis e de fácil manutenção gerou o seu progressivo desaparecimento.

Na tentativa de salvaguardar e promover a continuidade dos saberes e técnicas tradicionais associadas a esta Arte, o Município de Sesimbra adquiriu, no passado mês de agosto, o antigo estaleiro de construção naval de Acácio Farinha (1922-2017), situado no Porto de Sesimbra, assim como todo o seu espólio.

Encontrando-se em fase de reabilitação, o espaço será uma extensão do MMS, homenageando o mestre carpinteiro naval Acácio Vidal Farinha, sesimbrense que exerceu esta atividade durante mais de oito décadas, tendo sido um dos grandes divulgadores desta arte e da sua preservação.

No seu estaleiro, foram construídas centenas de embarcações para todo o país e Europa, entre as quais um elevado número de “Aiolas” tradicionais de Sesimbra. Na sua nova vida, enquanto extensão do MMS, o estaleiro será um espaço visitável, de fruição comunitária e promoção de saberes e técnicas associadas à construção naval em madeira.

Terá uma área destinada à formação em construção naval e modelismo, e uma valência de apoio à preservação de embarcações tradicionais sesimbrenses, em especial, a aiola.

Figura 9. Embarcação tradicional Nossa Senhora da Aparecida

Em simultâneo, permitirá a concretização de residências cientificas, permitindo introduzir novas técnicas de registo 3D de embarcações, tendo em vista ao seu inventário, conhecimento e preservação.

Reabilitação da Embarcação Tradicional – Barca do Alto – Nossa Senhora da Aparecida

Construída em 1961 nos estaleiros navais da vila pelas mãos experientes do Mestre Joaquim Farinha, a barca do alto Nossa Senhora da Aparecida integrou o espólio do Município em 2012, sendo um dos últimos registos flutuantes das tradicionais embarcações de pesca sesimbrenses, documentadas desde a Idade Média.

Com pouco mais de 10 metros de comprimento, foi utilizada durante várias décadas na atividade piscatória. Ficou célebre no ano de 2005, depois de ter feito a travessia do Oceano Atlântico, entre Sesimbra e Porto Seguro, no Brasil, recriando a rota seguida em 1500 por Pedro Álvares Cabral.

Necessitando de uma profunda intervenção de reabilitação para devolução das características originais, encontra-se, neste momento, a ser recuperada no Porto de Sesimbra pelo Mestre Policarpo Botas, carpinteiro naval com mais de cinco décadas de experiência no trabalho com embarcações tradicionais em madeira.

A intervenção consiste na conservação das madeiras para criação de condições de navegabilidade e segurança, tendo em vista a sua adaptação a fins museológicos, enquanto extensão do MMS.

Prevendo-se que se encontre em plenas condições de utilização no primeiro semestre de 2024, irá permitir a concretização de atividades de investigação científica, ações pedagógicas e iniciativas com a Comunidade, encontrando-se a intervenção a ser documentada com fins científicos relacionados com o estudo da arquitetura deste tipo de embarcação.

Certificação “Embarcação Tradicional de Sesimbra”

Consistindo num projeto a ser concretizado num futuro próximo, a certificação “Embarcação Tradicional de Sesimbra”, permitirá criar um regulamento que certificará as características tipológicas das embarcações tradicionais da região, em quatro categorias: Barca do Alto, Aiola, Chata e Chato.

Tendo a sua génese associada às atividades piscatórias, atualmente, restam poucas dezenas de exemplares, pelo que urge zelar pela sua preservação e autenticidade.

Sendo o mote para a criação de um conjunto de incentivos que visem promover, nas suas várias dimensões, o elevado valor destas embarcações para a conservação do património marítimo sesimbrense, a certificação permitirá criar um polo vivo do MMS, intrinsecamente associado ao futuro Estaleiro Escola.

A sua concretização será, igualmente, o ponto de partida para a inventariação destas embarcações, e subsequente recolha de memórias e testemunhos, cuja recolha é fundamental para a caracterização da história marítima local do último século.

■ 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Procurando dar resposta ao importante papel que os Museus devem assumir na sociedade do século XXI, e subsequente adaptação às suas necessidades e constantes desafios, o Museu Marítimo de Sesimbra tem procurado ultrapassar barreiras físicas, etárias e intelectuais, através da aposta em projetos inovadores que permitam reforçar o elo com a(s) Comunidade(s), incentivando-as a participar, ativamente, no seu quotidiano.

Programas inovadores, como as criações artísticas de raiz com a colaboração de atores profissionais, a participação na manutenção de tradições marinheiras ancestrais ou a aplicação de soluções multimédia de índole criativa, são alguns dos projetos em curso, entendidos como fundamentais para a promoção, a nível nacional e internacional, dos vários patrimónios marítimos que compõem os seus acervos.

Paralelamente, também a criação de novas extensões, como o Estaleiro-Escola Acácio Vidal Farinha ou o futuro Centro Cultural Costeiro, a reabilitação da embarcação tradicional Nossa Senhora da Aparecida, ou a futura criação da certificação “Embarcação Tradicional de Sesimbra”, são ações fundamentais para assegurar o futuro destes inúmeros patrimónios numa comunidade que sempre teve o Mar como horizonte.